Resenha: O QUINZE

Quando ainda estava no ensino médio, um professor de literatura me indicou dois livros, um deles, que por alguma razão e apesar de não o ter esquecido, protelei a leitura até esses dias . E é sobre este título que teremos resenha hoje.

O quinze, de Raquel de Queiroz, é uma obra regionalista, característica marcante da segunda geração modernista brasileira, ambientada no nordeste de 1930; ao longo de seus 26 capítulos retrata  os efeitos dessa seca na vida de alguns personagens que tem suas histórias interligadas, mas com diferentes desenvolvimentos.


O título do livro provêm da seca que atingiu o nordeste em 1915, mais especificamente, o estado do Ceará, e é importante saber, antes de tudo, a relevância desse acontecimento. Resumidamente, em decorrência da falta de chuva, vegetação e animais foram muito atingidos, e isso desencadeou um considerável fluxo migratório da população local. Os chamados retirantes iam principalmente para a capital do estado, e se alojavam nos campos de concentração, que na realidade eram simbólicos, quem conseguia chegar via que se tratava de aparências, as autoridades eram indiferentes àquela situação, e no livro de Raquel conseguimos identificar isso claramente. 

"Vicente marchava através da estrada vermelha e pedregosa, orlada pela galharia negra da caatinga morta. Os cascos do animal pareciam tirar fogo nos seixos do caminho [...]"

Breve resumo:
Conceição, uma professora solteira e boa leitora, está passando as férias na casa da avó IdalinaPrima de Vicente, homem pelo qual se torna claro ao longo da leitura haver um sentimento mais profundo , a professora tenta convencer sua avó a ir para a cidade por motivo da falta de chuva e a seca agressiva que atinge o sertãoCom o agravamento da situação e vendo que muitos moradores o faziam,  a senhora acaba se convencendo a passar uma temporada com a neta. Vicente, que por sua vez fica no local, enfrenta o mal tempo na tentativa de salvar os poucos animais que ainda restam. 
Já Chico, outro personagem ao qual somos convidados a acompanhar, após perder o trabalho e se vê sem dinheiro suficiente para comprar passagens para toda família, decide seguir a pé até a capital em busca de abrigo com sua mulher Conceição e seus filhos. 
Durante a leitura, acompanhamos as vidas dessas pessoas em meio a seca e como se dá o percurso da família de Chico, que passa por situações desumanas enquanto tentam chegar à seu destino. 

Comentários... #AlertaSpoiler 

Um episodio que me chamou muito atenção foi o de uma mulher que usava uma criança doente para pedir esmolas, enquanto a criança morria em seus braços ela se sustentava. Assim que essa parte começou a ser narrada entendi do que se tratava e é "abismante" o ponto que o ser humano pode chegar quando se vê uma situação de miséria. Se posso julgar? Não sei, afinal de contas, só estando naquela situação para saber o que parece ser certo ou errado, mas uma coisa é fato, para uma mãe ceder seu filho quase morto por uns trocados é sinal de que a vida já não faz lá muito sentido. E o mais louco disso é pensar que muitas famílias viveram e ainda vivem situações muito parecidas com essa.

O livro trás inúmeros momentos como este, que nos levam a refletir e até nos arrancam lágrimas. Uma parte muito tocante para mim foi a despedida da família de Chico e Conceição, quando eles vão em busca de uma nova vida após tanto sofrimento, a falta de perspectiva de futuro melhor, mas ao mesmo tempo a esperança que uma nova cidade pode trazer é emocionante para quem leu capítulos e mais capítulos de dor. E, sem duvidas, outro momento importante é quando a chuva cai novamente no seco sertão, é impossível não se sentir tocado  se você tenha minimamente se envolvido com a história .
Ainda assim, em meio a tanta tristeza, encontramos momentos de alívio cômico. Destaco nesse sentido duas conversas, uma entre Conceição e sua Vó e a outra durante a visita de Vicente às senhoras. Conceição, que por ciúmes maldava o primo, me causou algumas risadas e trouxe leveza à leitura.


A linguagem usual é um ponto forte do livro e torna a leitura agradavelmente fluida, ao julgar pela quantidade de páginas, o livro é facilmente devorado. Apresentando apenas uma ou outra expressão já em desuso, a escrita do livro me fez, por vezes, esquecer que a obra se trata da realidade vivida ni inicio do século. Comportamentos como uso de saias compridas, por exemplo, que me faziam lembrar de qual época estamos falando. 

O que faz um livro ser um bom livro? Para mim, quando além de entreter, apresenta nova realidade e situações que jamais viveríamos, nos faz refletir e questionar ele já mais do que cumpriu seu papel, e O quinze é esse tipo de livro. Envolvente, faz-nos ansiar pela próxima página e pelo desfecho, emociona e sem dúvida apresenta reflexões muito atuais, embora há tanto tempo recorrentes.

É isso! Até 💛.

Comentários

  1. Uma resenha feita com muito detalhes e clareza , demonstra a intimidade com a leitura e o uso adequado das palavras justificando o gosto e prazer pela leitura ! Parabéns!

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