Por, Wendel Jorge
Na última quarta-feira, dia 25,
chegou ao streaming a série Fim, baseada no best-seller de mesmo nome da autora
Fernanda Torres, lançado há dez anos atrás, sucesso de crítica e de vendas.
O projeto de criar algo para a
televisão, estendendo a história do livro, foi pensado antes da pandemia, as
gravações começaram semanas antes do mundo inteiro parar, mas foram suspensas em
decorrência da propagação do Corona Vírus. Somente um ano depois fora retomada
e finalizada para então, após muita espera, ser lançada.
O livro conta a história de um
grupo de cinco amigos cariocas e suas respectivas esposas que rememoram as
passagens marcantes de suas vidas em Copacabana, em um período entre 1968 e
2012, dividida em fases que abrangem a juventude, maturidade e velhice dos
personagens. Ao longo das décadas eles compartilham amores, traições, mágoas,
alegrias, manias, loucuras e frustrações.


Fui assistir ao episódio com muita expectativa para finalmente ver ganhando corpo em tela tudo o que eu tinha lido no livro tempos atrás. Confesso que essa ansiedade se concentrava em conhecer uma personagem em particular: Ruth. Durante toda a leitura, muito me chamou atenção a personagem descrita como "o feminino pleno", "uma mulher para casar" e já em seus momentos derradeiros como "a escrava do seu dono", e a "sombra da mulher que um dia foi". Ruth é esposa de Ciro, um dos cinco amigos do grupo, e é no desgaste dessa relação doentia que vemos a personagem definhar. Apesar de aparecer em poucos momentos do livro, pois ali não era a protagonista – aliás, a série traz essa novidade, se no livro o grupo de amigos tem o protagonismo da trama, nesta versão os casais passam a ser o destaque – eu tinha certeza que esse desenvolvimento seria um dos pontos altos da adaptação.

Assim que o primeiro episódio
começou, já me encantei pela fotografia que abusa de todo o charme da década de
setenta e oitenta, depois fui fisgado pela trilha sonora, em sua maioria
nacional, sem falar do primor que ficou a abertura, mas o que mais chamou
atenção mesmo foi o elenco que está um luxo. Não tem ninguém mais ou menos ali.
Todos estão muito bem defendendo seus personagens. E para minha felicidade, caiu
nas mãos de uma das minhas atrizes favoritas dar vida à personagem que mais
intrigou minha leitura. Ruth é interpretada por ninguém menos que Marjorie
Estiano.
Como já é de conhecimento geral,
ela é muito mais do que uma profissional competente; é uma artista, completa,
profunda e inquieta, que mergulha a fundo em cada novo personagem que vive.
Nenhum texto dito por ela é dito em vão, tudo sempre faz muito sentido para
quem ouve. Mesmo depois de anos vivendo a
mesma personagem, a doutora Carolina na série Sob Pressão, que durou por cinco
anos, rendendo-lhe vários prêmios e prestígio internacional, Marjorie soube se
reinventar nesse novo trabalho de uma forma surpreendente até para quem já
conhece o seu talento. A Ruth não lembra em absolutamente nada a Carolina,
mesmo tendo a mesma carga dramática. Já em suas primeiras cenas vemos toda a
beleza de uma atriz que rouba toda a atenção preenchendo toda a tela com a sua
presença em cena, forte e vibrante, hipnotizando o telespectador com a sua capacidade
de encantar ao contar uma história indo de um extremo ao outro de uma forma tão
minuciosa que te envolve completamente como se tivesse te puxando pela mão para
ir junto com ela desvendar aquele ser humano que se quer apresentar.
Sua primeira aparição é deitada em
um quarto mal iluminado, numa casa que mais parece abandonada, usando roupas
velhas, completamente apática mesmo mediante a notícia da morte do homem que tanto
amou. Curiosamente em suas primeiras cenas ela apenas ouve, não fala quase
nada, mas a gente consegue entender tudo o que não é dito através de seu olhar.
O episódio segue com ela colocando uma música para tocar na vitrola enquanto
começa a relembrar o passado.
Surge aqui uma outra mulher em cena: solar, alegre, iluminada, viva! Cantando Gal Costa em uma roda de amigos toda sorridente, sendo aplaudida e fazendo com que Ciro, muito bem defendido pelo ótimo Fábio Assunção, diga-se de passagem, se encante por ela instantaneamente. Ele senta ao seu lado e puxa Samba em Prelúdio fazendo as vezes de Vinícius de Moraes enquanto ela engata de forma belíssima a voz da Odete Lara em um dueto apaixonante. Ali não são só os dois que se apaixonam um pelo outro, nós, que estamos assistindo atentamente, também nos apaixonamos por eles. E para os fãs mais saudosistas como eu, ver a atriz que também é uma ótima cantora, soltando a voz faz a cena ter todo um efeito ainda mais especial.
Em cenas fora de ordem cronológica misturado presente e passado, a série vai nos contar mais a fundo o que o livro apenas pincela, mostrando, por exemplo, durante os seus dez episódios, como que aquela mulher cheia de vida chegou naquele estado desolador.
De uma forma impressionante, Ruth parece ser interpretada por duas atrizes completamente diferentes; uma sombria e triste, fumando sozinha dentro de sua casa e a outra solar e alegre cantando em volta dos amigos. Um trabalho de composição tão perfeito que as diferenças são visíveis para além da caracterização, figurino ou fotografia. A postura do corporal, o tom de voz mudam como em um efeito de edição de uma fase para outro. Um prato cheio para uma atriz como a Marjorie e um deleite para o telespectador apaixonado. Revisão: Paloma Freitas
Comentários
Postar um comentário